por Victor Martinez

assunto: Paternidade

Paternidade e mercado de trabalho: O cuidado parental e a sociedade do cansaço

“Como estamos tratando nossas crianças, antes mesmo de elas nascerem? Como tratamos quem gera estas vidas, para além do manual de tudo sobre nada, proposto diariamente nas redes sociais em busca de visualizações?”

Gostaria de iniciar este artigo deixando dois aspectos claros, o primeiro é que não tenho o hábito de expor minha intimidade ou minha família em qualquer rede social que seja, mas neste caso, creio que a temática foi tão significativa para mim, que fez sentido dividi-la. O segundo ponto é que falarei a partir do ponto de vista do cuidado paterno, o qual me compete dizer, lugar em que iniciei minha curta, porém intensa, jornada como pai há 17 meses.

Sim!!! 9 meses no apoio intrauterino da minha esposa e da minha filha, e 8 meses com ela em nossos braços, e também no chão, afinal, ela já está bem pesadinha. Obviamente, pela estrutura legal que nos encontramos, e principalmente pelo aspecto cultural do nosso país, o ato de cuidar acaba sendo direcionado e esperado socialmente, e quase que integralmente, para aqueles que desenvolvem o cuidado materno, que em sua maioria é composto por mulheres, mas e o cuidado paterno, onde se encaixa neste processo?


Este ponto é justamente o cerne da discussão deste artigo! A desconstrução de uma cultura machista vai além de mensagens nas redes sociais desconstruídas e bem intencionadas, propagandas e campanhas publicitárias institucionais bem elaboradas. Creio que precisamos de mulheres, homens e outras formas de identificação de gênero, que tenham coragem de agir, se posicionar e provocar a reflexão em um país marcado por uma cultura de muitos anos de escravidão, e consequentemente pelo machismo em diferentes níveis, onde o esperado ainda hoje, é que o provedor financeiro principal seja sempre o homem, que busque a caça, e quando der tempo, se houver tempo, pratique o ato de cuidar.

Dúvidas se ainda é assim?

Basta analisarmos os períodos de licenças maternidade e paternidade, o que eles nos dizem? E após esse período de licença, quem é mais comum que se adapte profissionalmente para o novo momento familiar? Quem a sociedade nos diz que deve ser o principal responsável pelo cuidado? Na grande maioria das vezes, este ato recai sobre as mulheres, que há alguns séculos tem acumulado a função do cuidado com os filhos, e também o de buscar a caça, e ser responsável por prover o lar, muitas vezes, de maneira solo. O que mudou então nos últimos tempos? Desde a metade do século XX, com o fortalecimento do neoliberalismo e da globalização, não basta somente que a mulher cumpra a função de auxiliar, de compor a busca pela caça, ela também passou a ter o direito e o protagonismo de constituir carreira, de se desenvolver profissionalmente, sempre mantendo a lógica de acumular uma função a mais, sem deixar para trás aquilo que dela já era esperado anteriormente. Tantas novas funções de trabalho foram incorporadas por quem faz o cuidado materno, vestidas e empacotadas como obrigações e possibilidades de novas metas a serem atingidas por um suposto “super” feminino, alimentando a sociedade do cansaço, como é nomeada pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han, sentida ao extremo por quem se ocupa do verbo cuidar, reitero, implacavelmente e majoritariamente, pelas mulheres.
Qual o resultado dessa nova lógica em um país como o nosso? Altos índices de misoginia, transfobia, feminicídio, além de muitas mulheres ganhando menos, fazendo as mesmas funções que os homens, e consequentemente índices de nascimento cada vez menores, ano após ano, não somente pela justa opção e desejo das mulheres e homens em optar por serem pais ou

não, mas pela criação de um meio quase que hostil para a vivência da experiência parental. Sendo que a partir de 2041, uma das consequências que iremos sentir diretamente, segundo o último estudo do IBGE/2024 sobre natalidade e envelhecimento, é que a população brasileira começará a diminuir, e vários novos desafios virão com este novo cenário. Mas voltando a pergunta inicial, nesta nova lógica social, ainda hoje, a quem cabe desenvolver o cuidado? Vamos tentar abordar rapidamente 3 pontos de vista críticos a respeito desta questão:
· Primeiro ponto, a quem cabe o cuidado? A estratégia primária, e possivelmente mais elementar, de enfraquecimento de direitos é a lógica da competição, e se não tomarmos cuidado, ela se estabelece principalmente em casa, entre os casais. A responsabilidade do cuidar, importante frisar, e não a culpa pela falta de tempo dedicado a um outro ser, deixa de ser de um sistema que cada vez mais coloca o trabalho como objetivo primeiro, e algumas vezes único. As discussões do casal passam a ser de um contra o outro, invés de compreender que o sistema ao qual estamos imersos oferta pouco apoio para este novo papel que ambos estão assumindo, aconteça de forma saudável. As demais questões que envolvem o desenvolvimento humano, a vida como um todo, passam a direcionar o projeto de vida de todas as pessoas para uma direção única e homogênea, em prol do progresso material conquistado por meio do trabalho. Sim, é humano compartilharmos nossas frustrações com quem é mais próximo, com quem temos intimidade, isto é parceria, no entanto, quando se trata de criar uma criança, como diz o famoso ditado africano, é preciso uma aldeia, inclusive para dividir as dificuldades, e quanto menos companhias tivermos para dividir tal cuidado, e mais sozinhos e isolados ficarmos, mais desafiadora tende a ser a parentalidade. É claro que ouvindo diferentes mulheres, principalmente durante os anos trabalhados como psicanalista, psicopedagogo e condutor de grupos de família, é notório que para muitas mulheres o jargão social vale, “antes só do que mal acompanhada”. Mas creio que se for possível, se houver disponibilidade, se faz fundamental ter “alguéns” para dividir as dificuldades, as dúvidas, e principalmente para desenvolver valores que possibilitem a criação de diálogos de troca.

· Neste aspecto, chegamos ao segundo ponto, e nos fixaremos aqui no desenvolvimento dos valores. Há muitas linhas de estudo sobre o desenvolvimento da infância, das questões filogenéticas às ontogenéticas, mas neste caso, vamos sublinhar a condição de transmissão de conhecimento e valor, sendo estes, fundamentais para composição da personalidade de um indivíduo. Independentemente da linha de estudo, algo é praticamente comum a todas elas, por mais que se trabalhe e se conquiste dezenas de questões materiais, melhores escolas, roupas, brinquedos e recursos em geral, os adultos presentes nos primeiros anos de vida da criança, serão os responsáveis por criar e constituir valores, por desenvolver as condições e as experiências afetivas, construindo o que podemos chamar de ideais que a criança carregará por toda a vida, e para isso, se faz necessário, TEMPO! E no caso deste tempo que estamos falando, ele é finito e exige elegibilidade, cada escolha uma renúncia.
· O último ponto, o qual escolhi para fechar este texto, vem justamente deste aspecto relacionado a renúncia. Mas antes de discorrer rapidamente sobre ele, somente um parêntese, grande parte das pessoas neste país, tem pouca chance de escolher, pois lutam diariamente pela própria subsistência e dos seus, e não possuem muitas vezes oportunidade de escolha, vivem no que podemos chamar de falsa democracia dos explorados de uma nação. Mas retornando aqueles que podem fazer escolhas, que por vezes estão em função de liderança e/ou de liderados, o que temos feito para modificar essa cultura machista e atrasada? Lendo a biografia de um dos maiores líderes que esse mundo conheceu, Nelson Mandela, ficou claro para mim, que os saberes que ele adquiriu com seus estudos formais em direito e demais áreas que estudou, foram importantes para ele se tornar o que foi intelectualmente, mas realmente o que foi decisivo e fundamental para sua incrível trajetória, foram os valores que ele obteve em XHOSA, comunidade onde nasceu e permaneceu entre sua infância e começo de sua adolescência. Me pergunto, será que a crise que temos tido nestes últimos tempos em diferentes setores a respeito da formação de lideranças tem relação com a forma na qual estamos criando nossas crianças?

Adicionando a reflexão acima, Pierre Bourdieu costumava trazer em seus pensamentos, que a forma na qual uma nação trata suas crianças está ligado
a nação. Como estamos tratando nossas crianças, antes mesmo de elas nascerem? Como tratamos quem gera estas vidas, para além do manual de tudo sobre nada, proposto diariamente nas redes sociais em busca de visualizações? Sinceramente, não tenho condição, tão pouco a pretensão de saber a resposta destas duas questões, menos ainda das questões trazidas neste texto, e de outras que poderão suscitar a partir desta leitura, a única certeza que tenho, e essa vem dos meus pais, que tantos valores humanos me transmitiram, é que para mudar uma lógica é preciso coragem, para refletir e agir de acordo com a própria palavra, e também vontade, para buscar o equilíbrio em prol do que importa, direcionando energia aquilo, e principalmente a quem amamos.

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